Apoio à edição e tradução de obras: o lugar do livro nas línguas

O Ecossistema Literário e a Circulação do Livro na CPLP

A literatura é um dos mecanismos essenciais à aproximação cultural. Entre diversos povos, a arte, não obstante a componente fruição, também funciona como uma ponte dos afectos, pela qual se interligam possíveis relações humanas.

Em qualquer país, a literatura carece de público. Em Moçambique, por exemplo, a formação de leitores e de entusiastas da arte literária surge nos meados do séc. XIX, em Nampula. No entanto, nem sempre o debate sobre a consolidação do ecossistema literário nacional é consensual, pois, em muitos intervenientes, paira a percepção de que ainda há muito a fazer para que os livros tenham a visibilidade necessária.

Nos últimos 10 ou 15 anos, verifica-se no país uma acentuada revitalização estético-literária. Em quase todas as províncias nacionais, despontam escritores e poetas talentosos, que, geralmente, se revelam em edições de “pequenas editoras”. Portanto, a qualidade criativa existe e, inclusivamente, tem-se evidenciado em diferentes géneros. Neste momento, o problema dos moçambicanos não é necessariamente a qualidade dos seus autores, mas a definição de políticas suficientemente capazes de estimular a cultura de leitura e da compra do livro.

Numa entrevista concedida à Stv, o poeta Álvaro Fausto Taruma lamenta o facto de no país a escrita literária ser um investimento ingrato, quer dizer, o autor dedica muito do seu tempo e da sua disponibilidade a uma arte que é frustrante, em termos de compensação. Por isso mesmo, em 2022, o poeta anunciou que não mais publicaria uma obra poética e, desde então, investiria o tempo de que dispunha em trabalhos mais rentáveis.

Em certa medida, a fraca venda do livro, denunciada por Taruma, tem a ver, entre outros factores, com a deficiente cadeia de distribuição do livro e a defeituosa mobilidade dos autores. Com raras excepções, os escritores produzem e promovem as suas obras nas províncias onde vivem, num país em que, ignorando as que se encontram em Maputo, Sofala, Manica e Nampula, não se sabe de nenhuma livraria noutros lugares. Logo, as obras dos escritores não circulam como se pretende e os próprios autores raramente têm a oportunidade de expor o produto do seu empenho fora da sua cidade ou vila, pois, apesar de a capacidade criativa estar dispersa ao nível nacional, a actividade editorial encontra-se centralizada em Maputo e Beira.

Os constrangimentos enfrentados em Moçambique têm muita relação com os de toda a CPLP. Se, no passado colonial (e um pouco depois das independências nacionais, em 1975), as trocas literárias entre os PALOP, Portugal e Brasil eram consistentes, actualmente, esse cenário diminuiu drasticamente.

Os angolanos mal editam os moçambicanos; os moçambicanos mal lançam os portugueses; os portugueses, que antes reclamaram para si a centralidade da edição e distribuição da literatura dos PALOP, em geral, perderam esse protagonismo para interesses comerciais pouco ligados a altruísmos culturais. Por exemplo, quando se passeia por Lisboa, nas livrarias Lello, FNAC e Bertrand (entre as maiores do país), além de Mia Couto, Paulina Chiziane, João Paulo Borges Coelho, Pepetela, José Eduardo Agualusa ou Ondjaki, é raro encontrar obras de outros autores africanos de língua oficial portuguesa, sobretudo os que estão em ascensão.

Por um lado, os grandes grupos editoriais portugueses, LeYa e Porto Editora, não acompanham com investimento editorial os autores africanos que publicam a partir deste novo milénio. Pelo contrário, fica pelo menos a impressão de que são fiéis a uma geração de consagrados que dão outras certezas em termos comerciais.

Por outro lado, não havendo edições portuguesas de autores são-tomenses, cabo-verdianos ou guineenses, as livrarias não são capazes de importar edições africanas. Logo, as bibliotecas portuguesas adquirem o que há no mercado interno, o que as impede de diversificar o seu catálogo. Por conseguinte, o mercado literário europeu, que é muito competitivo, fica como que inacessível aos escritores PALOP, uma vez que Portugal, por razões históricas e linguísticas, tem sido a porta de entrada dos africanos naquele mercado.

Consciente de que a circulação dos livros e a mobilidade dos autores são importantes para o fortalecimento da língua portuguesa como um património comum, a Câmara Municipal de Lisboa e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo instituíram um programa de residência literária, que permite a uma nova vaga de escritores criar e promover o seu trabalho na capital portuguesa e os escritores portugueses em Maputo e Praia. Com este tipo de oportunidade, os beneficiários de residência garantem um intercâmbio cultural em programas como feiras e festivais de literatura e ainda vêem as bibliotecas adquirirem os seus exemplares. Mas, conforme defende a Chefe de Divisão da Rede de Bibliotecas de Lisboa, Edite Guimarães, é preciso intensificar os momentos de partilha entre os autores portugueses nos PALOP e os africanos de língua portuguesa em Lisboa, tal como acontece em relação aos brasileiros, e tornar esses momentos, de facto, momentos de partilha para dar a conhecer as suas obras e, se calhar, de outros autores também.

Aliado a isso, de acordo com Edite Guimarães, convocar e invocar a comunidade PALOP em Portugal é imprescindível: “É fundamental conseguirmos chegar aos autores, (…) até porque há um património cultural gigantesco que acaba por ser desconhecido, com livros difíceis de encontrar, sobretudo quando não são editados em Portugal”, frisou a gestora, acrescentando que, em particular, a literatura africana de língua portuguesa pode garantir aos falantes um espaço de diálogo e de aproximação, pois, segundo concordou, o futuro da língua portuguesa também passa pela circulação dos livros e pela mobilidade dos autores que escrevem em português.

Confrontado com o facto de a presença dos livros e dos autores moçambicanos em Lisboa ainda não ser a almejada, e dos portugueses em Maputo também não, José Luís Peixoto considerou que “o que mais falha é a máquina editorial, que encontra muitas dificuldades ao nível da distribuição, assim como de outras circunstâncias necessárias a uma boa circulação dos livros. Pessoalmente, acredito que há vontade por parte dos públicos leitores. A minha experiência em Moçambique é a melhor, sempre com recepções muito generosas. E acredito que, em Portugal, também haveria essa apetência se os livros estivessem mais disponíveis e os autores fossem mais conhecidos”.

Para o autor de Somos a primeira pessoa do plural, livro editado em Moçambique pela Editorial Fundza, num contexto em que as literaturas europeias, norte-americana ou brasileira conseguem ser mais competitivas, é possível que os editores portugueses se sintam pouco confiantes para avançar com o que consideram ser um risco editorial. “Em Portugal, a editora Caminho cumpriu um papel histórico na publicação de autores africanos, nomeadamente moçambicanos. Seria bom que outras editoras seguissem esse exemplo.”

Enquanto o exemplo não for seguido, a oportunidade de os autores PALOP em ascensão publicarem em Portugal surge, principalmente, quando ganham prémios que lhes permitem visibilidade necessária para as editoras investirem neles ou quando têm a sorte de serem convidados a feiras e festivais. No sentido inverso, os escritores portugueses, tal como os brasileiros, de vez em quando, gozam de oportunidades que lhes permitem participar em cursos de literatura ou em feiras do livro, sobretudo as organizadas pelo Conselho Municipal de Maputo e pela Associação Kulemba, na Beira. Entretanto, essas raras oportunidades não resolvem o problema da circulação dos livros portugueses ou estrangeiros escritos em português, no país, pois, devido a uma pesada logística de importação, são comercializados a um preço que muitos consideram elevado, tal como José Luís Peixoto constatou, quando esteve em Maputo.

O caso é mais grave em relação à circulação dos livros dos autores africanos de língua portuguesa e em relação à sua mobilidade nos PALOP. Há um hiato enorme no intercâmbio entre os escritores angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos e são-tomenses em África. Por exemplo, para um angolano ler Germano Almeida, Ungulani ba ka Khosa ou Olinda Beja, tem de importar ou solicitar a importação dos livros a partir de Lisboa, o que não só encarece o livro como também condiciona o interesse. Além disso, é bem mais provável um autor PALOP ser editado ou participar em iniciativas literárias em Portugal e no Brasil do que em África. Logo, apesar de possuírem uma língua comum, o número de leitores está longe de ser significativo, porque até em espaços académicos o acesso aos livros é demasiado limitado.

Para a ensaísta e professora reformada de Literatura, Fátima Mendonça, a preocupação pela internacionalização literária é legítima. Todavia, antes de uma preocupação pela internacionalização, é importante que as literaturas dos PALOP sejam reconhecidas internamente, o que começa com programas do ensino primário e secundário. “Se no próprio país a literatura não é estimulada, vais internacionalizar para quê? A internacionalização devia ser consequência de um sistema literário sólido. Não há voltas a dar. Sei que a pessoa gosta de ser reconhecida fora, tudo bem. Mas uma pessoa ser conhecida fora não torna a literatura melhor”, defende a autora de Literatura Moçambicana: as dobras da escrita.

Apesar das dificuldades inerentes à obtenção das obras literárias da autoria de escritores africanos de língua portuguesa, ao nível universitário, quer nos próprios países, quer em Portugal, o interesse académico por aquelas literaturas é inquestionável. Na verdade, boa parte dos estudiosos que se destacam na pesquisa das literaturas produzidas nos PALOP lecciona em Portugal. Ainda assim, é no Brasil onde se verifica a grande divulgação. As pequenas, médias e grandes editoras, de Kapulana a Companhia das Letras, revelam um nível de consistência na publicação muito acima de qualquer outro país. Graças (também) ao interesse editorial e às políticas de educação, os brasileiros conseguem, apesar da distância em relação ao continente africano, liderar a divulgação das literaturas africanas. As dissertações de mestrado, as teses de doutoramento, a adopção dos livros africanos nos programas de diferentes níveis de ensino e as edições ensaísticas também destacam esse aspecto.

Não obstante o papel dos brasileiros na divulgação da literatura dos PALOP, sobre o tema circulação e mobilidade literária, na entrevista cedida à Soletras, em Janeiro de 2023, Rafael Gallo defende que: “Em um mundo capitalista, não há fronteira mais difícil de ser transposta do que a económica. Por exemplo, aqui no Brasil são muito mais lidos os autores da França ou da Inglaterra, que são países mais distantes em quilómetros do que Angola e, obviamente, mais distantes em termos da língua. Porém, há pontes invisíveis que as grandes potências conseguem estender entre as nações, mas os países periféricos, como nós somos, não têm sucesso em fazê-lo. Ainda que falem as mesmas palavras e estejamos no campo das palavras”.

Noutros termos, o escritor brasileiro explica que o destaque que o Brasil dá aos africanos de língua portuguesa é inferior ao que dá às literaturas europeia ou norte-americana.

Ora, seja como for, o Brasil faz pelos PALOP mais do que todos os países juntos fazem pela literatura brasileira. É como considerou a escritora brasileira Ana Paula Maia, quando esteve em Maputo: “Sei que em Moçambique a literatura brasileira publicada nas últimas décadas também não chega. E a literatura brasileira mudou muito nas últimas décadas. Já não trabalhamos uma literatura regionalista como era na época dos autores que chegavam a Moçambique. O mundo mudou muito, e a literatura brasileira reflecte isso. Acho que os livros do Brasil devem chegar mais a Moçambique e vice-versa, porque nós não temos fronteira da língua. Tenho mais acesso à literatura europeia, que é traduzida. Gostaria de ter mais acesso à literatura daqui [Moçambique]”.

Com a excepção dos títulos de um punhado de autores, enquanto a escrita dos africanos de língua portuguesa não merece investimento satisfatório ao nível da CPLP, o escritor moçambicano residente em Lisboa, Miguel Luís, explica o que tem acontecido: “Primeiro, quando viajamos para Portugal levamos connosco, nas malas, os nossos livros que são editados em Moçambique e se houver oportunidade organizamos pequenas sessões ou tertúlias no restaurante moçambicano Roda Viva, em Lisboa, e nessas sessões vendemos os livros. Depois da sessão, informamos os leitores, por meio das redes sociais, que temos os nossos livros à venda em Portugal. No caso de Lisboa, caso a pessoa não queira ou não possa ir ao Roda Viva, vamos ao seu encontro ou enviamos por correio e no caso do resto do país a comercialização é feita por correio”.

Com a vantagem de Portugal receber voos directos dos PALOP, a importação, distribuição e comercialização dos livros, em feiras e espaços universitários, também é feita pela coordenadora da editora Falas Afrikanas, Raja Litwinoff, alemã especializada em literatura africana. Contudo, nada do que se tem feito até aqui se revela determinante para tornar o sector livreiro da CPLP mais apelativo aos diversos intervenientes: autores, editores, livreiros, críticos, professores, jornalistas e leitores em geral. Por isso mesmo, o sentimento generalizado para quem encontra no livro um objecto que favorece a diplomacia cultural é de que a materialização de um sentido de Comunidade de Países de Língua Portuguesa também depende de os seus cidadãos lerem-se mais, até porque isso sedimenta relações económicas e políticas.

A circulação dos livros e a mobilidade de autores, a médio e longo prazo, segundo os autores, poderá ser alcançada se os acordos editoriais, ao nível da CPLP, priorizarem troca de originais que flexibilizem a publicação e minimizem o custo da venda, causado pela logística da importação. Simultaneamente, os países membros podem aprovar políticas, de facto, de isenção aduaneira ou fiscal que estimulem os livreiros a apostarem nos autores de língua portuguesa, o que seria acompanhado com o incentivo à aquisição dos livros da CPLP pelas bibliotecas municipais ou públicas. A criação de fundos específicos para a publicação de autores estrangeiros de língua portuguesa também é uma ideia referenciada pelos autores.

Por fim, e não menos importante, os intervenientes do sector livreiro acreditam que a criação de mais residências em diversas cidades da CPLP, o aumento de convites para os autores participarem em feiras e festivais ao longo da comunidade, bem como a inclusão da arte literária como um factor essencial de política externa, sobretudo entre os PALOP, são contribuições que podem concorrer para que os livros e os escritores sejam elementos-chave na construção e no fortalecimento de uma ideia de comunidade, que tem a língua como a base de tudo.

As entrevistas a Edite Guimarães, José Luís Peixoto, Fátima Mendonça e Miguel Luís foram feitas à luz da pesquisa “O conhecimento da literatura em língua portuguesa em Maputo e Lisboa”, no contexto de residência literária promovida pela Câmara Municipal de Lisboa e o Camões em Maputo.

Apoio à Edição e Tradução de Obras: O Lugar do Livro nas Línguas

Texto por: Elton Pila (Soletras, Janeiro 2025)

Os festivais literários são sempre celebrados com grande pompa. Ainda mais quando a circunstância chega com a palavra-adjectivo «internacional». São as oportunidades das grandes viagens dos escritores escondidos nas sombras em que entretecem os enredos; das confabulações com os pares; dos debates genéricos sobre o fazer literário e de levantar a capa do livro para que alguém estique o pescoço e consiga decorar o título e/ou nome do autor na esperança de uma compra futura.

Depois, os livros soçobram ao peso da neve ou do sol nos stands das editoras de origem (quando existem), enquanto os autores se tornam as estrelas da feira mascarada em festival em autógrafos nos bilhetes dedicados a leitores que nunca lhes leram uma palavra. E talvez nunca leiam.

De regresso a casa, com a bagagem menos pesada pelas distribuições dos exemplares em nome da simpatia, a viagem será celebrada mais pelas experiências turísticas, menos por um novo mercado em que o livro possa circular.

E é assim, mês atrás de mês, ano após ano, o passaporte a somar os carimbos de diferentes geografias sem que isso signifique uma nova tradução para a sua obra. Não se chega aos outros e aos outros custa chegar a nós.

Apontar a Ponte

Moçambique é um mercado editorial, apesar do crescente número de editoras, longe de ser sustentável. Os autores nacionais acotovelam-se para caber no pequeno saco em que estão depositados os orçamentos das editoras. A alternativa são as grandes empresas em nome de um mecenato de quantias nunca reveladas. E colocam os seus logos na contracapa para a marca ter a vida do tempo que o livro durará. O que dizer de autores internacionais? As edições ficam adiadas para o futuro possível.

Desde o seu surgimento, a Ethale Publishing tem estado a fazer o caminho para que tenhamos acesso a autores de outras geografias e línguas como Ngũgĩ wa Thiong’o, de quem publicaram “Matigari”, Aminata Sow Fall, de quem publicaram “A Greve dos Mendigos”, e Wole Soyinka, de quem publicaram “A Morte e o Cavaleiro Real”.

Mas, diz-nos Jessemusse Cacinda, editor e co-fundador da editora, apenas “Matigari” teve apoio — e de um fundo britânico. “Os outros livros fizemos com fundos próprios”, diz. De resto, anota, esta publicação de autores internacionais é parte do core business da Ethale. Mas continuam atentos a fundos a que podem aceder para publicações de autores brasileiros ou italianos em Moçambique.

A Ponte

“Cântico Voraz do Precipício” (Bruno Gaudêncio) e “Dicionário de Pequenas Solidões” (Ronaldo Cagiano) foram duas obras brasileiras saídas do prelo com o selo da Catalogus. Uma forma diferente de chegarmos à literatura brasileira a partir de editoras moçambicanas. A edição só foi possível pelo Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior.

São mais de 1 milhão de reais – quase 12 milhões de meticais – disponibilizados pela Fundação Biblioteca Nacional, um braço do Ministério da Cultura do Brasil. A iniciativa, que data de 1991, permitiu já que mais de 1200 obras brasileiras chegassem a leitores de mais de 40 línguas. Foram do inglês ao italiano; do francês ao russo; do espanhol ao mandarim; do polonês ao ucraniano; do eslovaco ao grego; do sueco ao croata, e há mais línguas pelo meio.

Em Moçambique, editoras como a Catalogus e Trinta Zero Nove beneficiaram de fundo para esta tradução, no edital lançado em 2023.

Apesar da língua, que torna para um leitor moçambicano um acesso mais fácil à literatura brasileira do que aos leitores de outras partes do mundo, uma edição moçambicana aproxima ainda mais o leitor.

A Catalogus, com um lançamento feito em Setembro de 2024, editou dois livros: “Cântico Voraz do Precipício” e “Dicionário de Pequenas Solidões”, de Bruno Gaudêncio e Ronaldo Cagiano. Mélio Tinga, co-fundador da Catalogus, pensa neste tipo de iniciativas como mais uma ponte entre o mercado do livro de Moçambique e de outros países:

‘‘Estes dois livros juntam-se a outros, ampliando o nosso raio, principalmente como editora, permitindo-nos chegar a mais leitores e a valorizar a ligação linguística que temos, neste caso com o Brasil’’, conta.

Antes da publicação, este trabalho de aproximação do livro ao leitor justifica uma edição moçambicana de uma obra brasileira, dois países que partilham o grande tapete da língua portuguesa. ‘‘Os livros têm a língua, a história e a cultura. Obviamente que, tendo antes sido publicados no Brasil, no processo editorial, em Moçambique, decidimos adaptá-los ao nosso contexto, adicionando ou substituindo expressões estranhas por aquelas que são comuns ao nosso leitor’’.

O mesmo trabalho foi feito pela Trinta Zero Nove. ‘‘No caso dos romances, fazemos a alteração do acordo ortográfico. E alguns termos, dependendo das permissões’’, disse Sandra Tamele, editora e fundadora.

A Trinta Zero Nove, que também vai fazer a publicação de “Canção para Ninar Menino Grande”, romance aclamado de Conceição Evaristo, vai também fazer chegar infanto-juvenis aos leitores moçambicanos em edições bilingues. Tamele lembra que apenas cerca de 11% dos moçambicanos falam português. Por isso, existe a necessidade de fazer chegar a literatura em línguas que são mais próximas para a maioria. A Trinta Zero Nove traduziu para emakhuwa, xiSena e xiChangana, como que em representação das línguas faladas na região norte, centro e sul, respectivamente.

Saem da sua safra: “Os Irmãos”, de Patrícia Auerbach (com ilustrações de Roberta Asse), e “Menina Mandioca”, de Rita Carelli (com ilustrações de Luci Sacoleira).

E é a literatura a cumprir a sua missão: apontar pistas, abrir caminhos, sugerir atalhos, mapear conexões e fazer chegar a outras realidades.

O Caminho da DGLAB

Ana Castro e Bruno Eiras, da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal (DGLAB), dizem que a preocupação maior da sua instituição é promover autores de língua portuguesa fora do espaço lusófono.

Mas têm atenção ao mercado brasileiro, num trabalho que começou há mais de duas décadas com uma linha de apoio à edição no Brasil, depois de uma avaliação dos encargos do envio das edições portuguesas. E é uma relação que tem estado a dar frutos. Só no ano passado, apoiou 60 obras de autores portugueses, num investimento de cerca de 75 mil euros.

Começam agora a ser pensadas estratégias para os países africanos. Indicam que este apoio à edição precisa de condições locais: “Precisamos de garantias de que existe um mercado editorial, uma indústria editorial mais robusta, um mercado livreiro dinâmico, uma rede de bibliotecas”. São estes elementos conjugados que permitem um trabalho contínuo. “Assim, torna-se mais sustentável”, disse.

Resta, pelo menos, aos autores africanos que têm o colo de uma editora portuguesa, seguir a rota da internacionalização, feita por António Lobo Antunes, José Saramago, Eça de Queirós, mas também por autores portugueses mais jovens.

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